Compreender o processo do cultivo do alimento orgânico implica, antes de tudo, consciência e responsabilidade. No texto abaixo, elaborado por Sibel Pinese Alves, colaboradora voluntária da Fraternidade e, atualmente, uma das responsáveis pela produção das mudas que abastecem a Chácara Day Luz e o Sítio Santo Antonio, é possível dar grandes passos nessa compreensão.
 
 

A AGRICULTURA NO DAY LUZ
 
 
Quanto à agricultura, onde tenho participado, não há como não se envolver com os elementos, com a questão da temperatura, da umidade, estações do ano, enfim, com a natureza. Uma orientação nos é dada sobre o que tem que ser realizado, o “como” fazer é resultado de muita observação. É claro que algumas informações são tiradas de literaturas, mas a maior parte dos cuidados com os nossos cultivares é baseada na observação, pois nem sempre a planta responde às condições de clima e solo da mesma forma que está escrito nos livros, por isso fazemos as nossas anotações que sempre são consultadas quando necessário. A disciplina é indispensável, pois só com ela alcançamos a interação necessária para que as plantas se desenvolvam da melhor maneira possível. E é a própria natureza que impõe esta disciplina, por exemplo: ela não pára um ciclo lunar só porque eu não colhi um canteiro ou não deu tempo de ralear uma bandeja da estufa, portanto, se não existir a disciplina e o compromisso de realizar as tarefas, o trabalho do grupo será afetado e principalmente o resultado final não será o esperado.
 
De maneira resumida, temos os seguintes passos para chegar ao nosso produto orgânico:
 
1. O lixo orgânico – É o princípio de tudo. É a matéria prima para se obter um solo sadio. É trazido por todos os participantes que já chegaram ao nível III dos cursos de autoconhecimento e que são convidados a participar nos trabalhos realizados no Day Luz. Temos neste exercício a conscientização do quanto é importante que o lixo seja a nossa “senha” de entrada no Day Luz, pois sem ele, não podemos dar seqüência aos trabalhos de agricultura orgânica.
 
2. Compostagem – A compostagem é o processo de transformação de restos de verduras, cascas de frutas e legumes crus (in natura) juntamente com materiais grosseiros, como palhada e estrume, em materiais orgânicos utilizáveis na agricultura. Este processo ocorre em seis canteiros de compostagem que temos no Day Luz, envolvendo transformações extremamente complexas de natureza bioquímica, promovidas por milhões de microorganismos do solo que têm na matéria orgânica in natura sua fonte de energia, nutrientes minerais e carbono. Por essa razão uma pilha de composto não é apenas um monte de lixo orgânico empilhado ou acondicionado em um compartimento. É um modo de fornecer as condições adequadas aos microorganismos para que esses degradem a matéria orgânica e disponibilizem nutrientes para as plantas.
 
3. Húmus – O húmus é o mais completo adubo orgânico existente. É obtido pelo processo de compostagem juntamente com minhocas, as responsáveis pela sua produção. É inodoro, asséptico (não contém sementes de ervas daninhas), rico em matéria orgânica, fósforo, potássio, nitratos, cálcio, magnésio, minerais, nitrogênio e microelementos assimiláveis pelas raízes das plantas. Não é tóxico para as plantas, animais e seres humanos.  Utilizamos o húmus tanto para o feitio das bandejas das mudas como para o preparo dos canteiros onde estas serão replantadas.
 
4. O preparo das bandejas – Após todo o trabalho que garante a boa qualidade do substrato a ser utilizado nas bandejas (terra e húmus), outros detalhes ainda são fundamentais para se obter mudas saudáveis: A escolha das sementes a serem utilizadas (devem ser de boa qualidade e viáveis ao nosso clima e solo); conhecer a quantidade adequada de sementes para o semeio de cada espécie, assim como a profundidade ideal para seu desenvolvimento; o contato manual com as sementes deve ser evitado, devido ao pH da nossa pele que pode alterar o desenvolvimento da semente, podendo até “queimá-la” (a semente não germina); deve-se haver assepsia das ferramentas utilizadas, para que não haja proliferação de organismos prejudiciais ao desenvolvimento dos “bebezinhos”; organização e quietude são fundamentais devido ao limite de tempo que temos e a quantidade de pessoas auxiliando (ora poucas, ora muitas); enfim, é um trabalho que exige extremo zelo e atenção.
 
5. As estufas – No Day Luz temos duas estufas. São os espaços ambientados com temperatura, umidade e luminosidade adequadas à germinação das sementes e ao desenvolvimento das mudas, um verdadeiro útero para as chamadas “plântulas” nesta fase do desenvolvimento. Também ali existe o cuidado com assepsia, o controle assíduo de ervas daninhas (pelo método de catação) e controle de pragas e insetos (com bio produtos a base de Neem – cultivado no próprio Day Luz, e uso de água fervente para os casos de formigas).
 
6. Os canteiros – Seguindo uma tradição da civilização Inca em que, assim como a caça, o preparo da terra era todo realizado pelos homens, no Day Luz também temos esta organização nas tarefas. Desde a capina, o volver da terra, a adubação e até a forração, são tarefas executadas pelos homens, que deixam tudo preparado para que depois as mulheres colaborem com o plantio do alimento.
 
7. O plantio – Ainda na tradição Inca, enquanto os homens caçavam, as mulheres participavam do cuidado da alimentação pelo ato de cultivar. Trazendo tal costume para a nossa realidade, temos aos finais de semana os trabalhos com o plantio das hortaliças orgânicas no Day Luz. Tudo é feito com a consciência de que estamos participando do ciclo de vida de um Reino inferior ao nosso, o Reino Vegetal, que merece o devido amor pelo simples e divino fato de nos sustentar. Trabalhamos a conscientização de que TUDO o que nos alimenta provém da terra, e por isso devemos respeitá-la.
 
8. A irrigação – Sabemos que a adubação é a prática agrícola que consiste no fornecimento de adubos ou fertilizantes ao solo, de modo a recuperar ou conservar a sua fertilidade, suprindo a carência de nutrientes e proporcionando o pleno desenvolvimento das culturas vegetais. No Day Luz, praticamos a fertirrigação, que consiste na mistura de adubos e nutrientes totalmente orgânicos à água da irrigação, garantindo que todo o solo seja fertilizado e as culturas sejam totalmente fortalecidas.
 
9. Colheita – A colheita das hortaliças é um momento especial. É o momento em que o vegetal está dando sua vida para sustentar outra vida. Por isso, reservamos a tarefa da colheita novamente às mulheres, que se valem de muita delicadeza, amor e consciência do ato que é a entrega de um ser para sustentar outro ser.
 
Reconheço todos os trabalhos realizados no Day Luz como grandes oportunidades de convivência e aprendizado, o conhecimento técnico a respeito dos ciclos de vida e dos cuidados específicos para cada espécie que cultivamos ajuda, mas posso dizer que não é só isso que garante o bom desenvolvimento das tarefas. A maior aprendizagem no Day Luz é a lição do convívio em grupo, a lição sobre “ser conduta daquilo que aprendi e aprender com a conduta do outro”, isso está sem dúvida fazendo a diferença. Ali no feitio das mudas, uma de nós sempre observa algo que a outra ainda não tinha observado e vice-versa. Estamos aprendendo juntas a ouvir umas às outras, trocar informações e chegar ao objetivo que é abastecer o Day Luz e o Sítio de mudas a serem replantadas. Estou aprendendo que só conhecimento técnico não basta. Se não houver disciplina, observação, organização e trabalho em equipe, não se chega a objetivo algum.
 
Agradeço profundamente a Deus pela minha saúde e pela oportunidade deste trabalho! E que Deus abençoe a tudo e a todos...
 
 



Para refletir...
 
“É preciso conhecer sua natureza para compreender sua individualidade, e ter coragem de se assumir naquilo que foi ou ainda é capaz de fazer.” – Sentidos, p.101
 



 


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